FALAR CURA?
- Clara Fontes

- 29 de ago. de 2022
- 2 min de leitura

Alguns pacientes me perguntam ao chegar no consultório se a terapia é mesmo importante para encaminhar seus problemas, já que têm amigos com quem podem conversar. Costumo responder que por mais que o tratamento psicanalítico se dê por meio da fala ele não se resume a uma conversa ou desabafo, pois aqui o que buscamos não é exatamente confortar ou apaziguar a angústia da pessoa como faria um colega, mas sim convidá-la a subjetivar este mal-estar e construir novos destinos para ele, o que requer um trabalho sofisticado de elaboração. E custoso, pois se reposicionar diante de um conflito construído ao longo de uma vida não é tarefa simples, muito menos rápida, e infelizmente não é algo que se resolva numa conversa entre amigos. A tarefa é complexa.
Talvez essa pergunta venha no lugar de uma outra. “Então quer dizer que falar cura?” – alguns me perguntam, perplexos com a ideia de que vão tratar suas crises de pânico, suas dores no corpo, sua insônia ou depressão “falando”.
É importante ressaltar que o uso que se faz da fala no tratamento psicanalítico tem um estatuto diferente daquele que acontece em nossa vida cotidiana, pois ali o outro para quem o paciente encaminha suas questões não está numa posição qualquer, de um amigo, colega ou familiar. A ideia é que numa análise o interlocutor do paciente seja de alguma forma seu próprio inconsciente, e ao analista caberia a função de ajudar o sujeito a escutá-lo.
O inconsciente pode ser entendido como aquilo de desconhecido que fala em nós e que muitas vezes nos causa espanto. Isso acontece, por exemplo, quando queremos dizer uma coisa e acabamos dizendo outra que surpreende, trazendo alguma verdade até então ignorada. Os sintomas, por mais que não digam nada para o sujeito, também são expressões desta ordem e também guardam alguma verdade sobre as dores e os desejos de cada um, com a diferença de serem “mensagens” muito mais complexas e que por isso requerem um trabalho mais elaborado para serem lidas e reconhecidas - o que uma análise se propõe a fazer.
Não falamos aqui somente dos sintomas físicos que aparecem sem causa fisiológica, mas num sentido mais amplo – dos imbróglios recorrentes na vida de cada um, como nos casos dos que encontram sempre as mesmas dificuldades na vida amorosa ou no trabalho e que, apesar dos esforços, não conseguem resolver, ou daqueles que não conseguem ascender na vida porque existe algo interno os impedindo de chegar lá, por exemplo. Será preciso, em cada caso, falar dessas questões em análise e deixar que o inconsciente apareça para poder então escutá-lo e assim, ao longo do percurso de cada análise, identificar quais são as forças em jogo impulsionando em dada direção.
Vemos, assim, que não é bem a fala em si que cura, mas o trabalho de elaboração feito pelo paciente em análise – um trabalho muito peculiar que se opera em torno de um desconhecido que fala em nós. Ao longo desse percurso as coordenadas dos traumas que marcaram o sujeito e seu desejo vão se traçando, abrindo caminho para novas maneiras de conduzir a vida.


